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Identificações Erradas de Minerais E Fraudes – Segundo Capítulo – Espinélio

ESPINÉLIO

Uma das fraudes mais recentes no comércio de minerais é a tentativa de se vender grupos de cristais de espinélio sintético como sendo espinélio natural.

Vamos a seguir fazer uma descrição das diferenças fundamentais entre ambos os materiais, que permitem uma fácil detecção da fraude:

ESPINÉLIO NATURAL

Espinélio na Calcita – Tanzânia

O espinélio é um óxido de magnésio e alumínio, MgAl2O4; quando quimicamente puro seria incolor ( o que até agora não foi encontrado na natureza ), entretanto impurezas diversas podem torná-lo preto, azul, lilás, verde, marrom, rosado ou, a variedade mais nobre, vermelho ( nesse caso a cor se deve a impurezas de cromo ).

Espinélio – Tanzânia

Cristaliza-se no sistema cúbico, quase sempre sob a forma de octaedros, e é relativamente comum exibir geminação ( conhecida como “Lei do Espinélio, que se constitui de 2 octaedros achatados superpostos ). As figuras abaixo, extradas do livro “Manual of Mineralogy”, de Klein and Hurlbut, pg. 309, mostram 3 dos hábitos mais comuns:

Figura (a) – Octaedro


Figura (b) – Geminado “Lei-do-Espinélio”

Figura (c) – Octaedro combinado com Dodecaedro

A dureza é muito alta, 8,5, e o índice de refração também é relativamente alto, 1,719, resultando em gemas com muita “vida”.

Ocorre normalmente em rochas metamórficas ( normalmente calcários metamórficos, como a peça que abre a matéria ); o maior produtor mundial é Mianmar ( região de Mogok ), sendo outros importantes produtores mundiais o Sri Lanka, a Tanzânia, o Vietnã e Madagascar ; não por coincidência todos esses países são importantes produtores de rubis, pois ambos se formam nos mesmo ambientes geológicos: rochas metamórficas portadoras de traços de cromo onde variações químicas localizadas levam à formação do rubi ou do espinélio.

Espinélio – Mianmar

Também não por coincidência o Brasil, que não é produtor de rubis de valor gemológico, também não é produtor de espinélios vermelhos; o Museu de Mineralogia da USP possui em seu acervo minúsculos octaedros vermelhos de espinélio que foram recuperados como sub-produto do processamento de areias monazíticas, possivelmente da região de Guarapari, ES. A região de Canindé, RJ, produziu no início da década de 80, em matriz de calcário metamórfico, cristais translúcidos azuis-acinzentados de espinélio, com hábito combinado de octaedro e dodecaedro, medindo até cerca de 1 cm.

Espinélio Azul geminado – Lei do Espinélio – Tanzânia

O espinélio pertence ao chamado “Grupo do Espinélio”, constituído dos seguintes minerais ( os marcados em negrito são comuns ou pouco raros, os demais são muito raros ):

Brunogeierita – GeFe2O4
Cromita – FeCr2O4
Cocromita – CoCr2O4
Coulsonita – FeV2O4
Cuproespinélio – CuFe2O4
Espinélio – MgAl2O4
Franklinita – ZnFe2O4
Gahnita – ZnAl2O4
Galaxita – MnAl2O4
Hercynita – FeAl2O4
Jacobsita – MnFe2O4
Magnesiocromita – MgCr2O4
Magnesiocoulsonita – MgV2O4
Magnesioferrita – MgFe2O4
Magnetita – Fe2+Fe3+2O4

Manganocromita – MnCr2O4
Nicromita – NiCr2O4
Qandilita -Mg2TiO4
Trevorita -NiFe2O4
Ulvoespinélio – Fe2+2O4
Vuorelainenita – MnV2O4
Zincocromita – ZnCr2O4

Além do espinélio o único outro membro do grupo que pode apresentar valor gemológico é a gahnita, que se apresenta normalmente sob a forma de cristais octaédricos de cor verde, que podem ser raramente transparentes e produzir gemas de razoável valor.

ESPINÉLIO SINTÉTICO

O espinélio é um material fácil de ser sintetizado: há muitas décadas já era produzido sob a forma de cilindros com uma das extremidades menor, chamados de “peras” ou “boules” ( da mesma forma que os mais primitivos rubis sintéticos ), e que eram preferencialmente coloridos, através de adequada adição de impurezas, de forma a simular a cor da água-marinha; são falsificações grosseiras, que um gemólogo com um mínimo de experiência detecta facilmente, mas que podem estar sendo até hoje fraudulentamente vendidas a compradores incautos em postos de gasolina nas margens da Rio-Bahia na região de Governador Valadares, Teófilo Otoni, Catugi e Padre Paraíso ou mesmo em lojas de souvenirs nas grandes cidades brasileiras.

Não pretendemos nos estender sobre esse assunto (espinélio sintético como gema falsa), pois isso é sobejamente conhecido pelo mercado. Nosso foco é a falsificação como mineral de coleção ou cristal esotérico.

Assim como é fácil produzi-lo como gema sintética barata, temos constatado nos últimos anos vários casos de cristais de espinélio sintético que têm sido oferecidos como espinélios ( ou outros minerais ) naturais. É relativamente simples e barato produzir cristais de espinélio em fornos metalúrgicos, mas esses cristais podem ser facilmente distinguidos dos naturais pelas seguintes características:

– são falsificações grosseiras, portanto não compensa que seja gasto muito tempo ou tecnologia para produzi-las: o resultado é sempre um grupo de muitos cristais de espinélio, o que nunca vimos até agora ocorrer na natureza: assim como o rubi, o espinélio quase se sempre se forma como cristais isolados ou como grupos de 2 ou não mais de 3 cristais, enquanto que os sintéticos são grupos de dezenas de cristais crescendo em paralelo

– são sempre translúcidos a opacos, pois o processo de cristalização deve ser muito rápido ( caso contrário o custo de produção aumentaria muito )

– examinando-se o material com uma lupa podem ser vistas cavidades esféricas na superfície ( bolhas de ar ), ou pequenos acúmulos esféricos de material sobre as faces dos cristais.

– como os cristais se depositam sobre o fundo do forno normalmente a base deles é plana, o que não ocorre nos cristais naturais

As fotos abaixo ilustram um grupo de cristais de espinélio sintético (notem as bolhas de ar no canto inferior direito) :

A foto abaixo mostra claramente a base plana:

Gostaríamos de ilustrar este nosso alerta com 2 casos concretos recentes:

1 – No show de minerais de Tucson um comerciante brasileiro estava oferecendo vários grupos de cristais octaédricos de cor vermelho-granada; eu inicialmente levei um susto, pensei que se fossem naturais deveriam ser de espinélio, mas eu não havia visto nada semelhante nem no Brasil nem em nenhum outro lugar; examinei com a lupa e vi imediatamente as cavidades esféricas bem como os pequenos depósitos esféricos sobre algumas das faces dos cristais, e perguntei então a ele:

– Asdrúbal ( nome fictício ), que material sintético mais fajuto e horroroso é esse que você está vendendo?

e ele respondeu:

– Você tem certeza que é sintético?

– Tenho!

– Eu também desconfiei, mas o Napoleão ( nome fictício ) me devia uma grana e me deu esse material como pagamento, e eu tenho que tentar recuperar prejuízo

– Você está vendendo isso como?

– O Napoleão me disse que era uma granada rara, com a forma de “balãozinho”, e eu estou vendendo como “granada vulcanizada”!

Horror puro!; por favor acreditem, a história é verídica!

2 – Há 3 meses um fornecedor tradicional veio ao meu escritório em Belo Horizonte oferecer um lote de quartzos rutilados; após fecharmos o negócio ele tentou me vender um pequeno lote, que alguém havia dado a ele em consignação, constituído de grupos achatados de cristais pretos, formando um reticulado, parecendo à primeira vista grupos de cristais geminados de rutilo exibindo a chamada “geminação reticulada”; entretanto o brilho do rutilo, daquela cor, da região de Diamantina ( onde ocorrem esses geminados reticulados ) é mais metálico e a densidade do rutilo é 4,23, um pouco superior à do espinélio, 3,56; desconfiei e fui examinar o material sob o microscópio e constatei a presença de pequenos depósitos esféricos sobre as faces de alguns cristais, bem como minúsculas cavidades esféricas nas extremidades.

Perguntei então o preço do lote, e o Gumercindo ( nome fictício ) me disse que o garimpeiro que havia encontrado o “caldeirão” com o material queria 1000 dólares pelo lote, então eu disse a ele para dizer ao garimpeiro que deixasse de ser ladrão e fosse ganhar a vida honestamente, pois o material é sintético e não vale nada.

O material tem simetria octaédrica e é também um espinélio sintético. Abaixo fotos de duas amostras que eu guardei, bem como a de um grupo de cristais legítimos de rutilo com geminação reticulada.

Espinélios sintéticos

Rutilo Reticulado

Todo o cuidado é pouco, a banditagem corre solta!

Finalizando este assunto, recebemos recentemente um E-mail com um link para o site www.unicadomundo.com, oferecendo o que se diz ser “o maior espinélio do mundo!”; sugiro que os prezados amigos vejam atentamente o conteúdo e tirem suas próprias conclusões!

Identificações erradas de minerais e fraudes – Capítulo I – “Obsidiana” ou “vidro-da-terra”

IDENTIFICAÇÕES ERRADAS DE MINERAIS E FRAUDES

PRIMEIRO CAPÍTULO – “OBSIDIANA” OU “VIDRO-DA-TERRA”

Infelizmente os mercados de minerais, de gemas e de cristais esotéricos têm sofrido com um grande número de erros de classificação ( intencionais ou não ), bem como fraudes de diversos tipos. Isso leva os compradores menos preparados ou desatentos a adquirir “gato por lebre”, bem como dificulta o trabalho dos comerciantes honestos que têm de competir com imitações de menor ou nenhum valor.

Daremos ênfase ao que ocorre no mercado de minerais para coleção e de cristais esotéricos, pois no caso das gemas existe uma estrutura bem montada de laboratórios gemológicos que vêm sistematicamente estudando e publicando informações sobre materiais sintéticos e processos de modificação de cor, o que não ocorre na mesma escala no caso dos minerais e dos cristais.

No primeiro número desta série abordaremos uma fraude bastante atual, que é tentar classificar VIDRO como “OBSIDIANA” ou “VIDRO-DA-TERRA”.

A obsidiana é um vidro natural, sem estrutura cristalina nem composição química constante, encontrado no interior de lava vulcânica. Ocorre em vários países do mundo, mas apenas onde houve vulcanismo relativamente recente ( o que não é o caso do Brasil, onde as mais recentes erupções vulcânicas ocorreram há cerca de 40 milhões de anos! ). As cores são sempre muito escuras ( marrom, marrom-esverdeada, marrom-avermelhada ou preta ), e o material é, com raras exceções, translúcido ou opaco.

Como se trata de material de baixo valor seu uso como material ornamental se restringe à produção de pedras roladas, ovos, esferas e esculturas ( com a exceção da “obsidiana arco-íris” ou “rainbow obsidian”, encontrada no México ). As variedades naturais mais conhecidas são as seguintes:

– OBSIDIANA “LÁGRIMA-DE-APACHE”

– ocorre no Arizona como nódulos semi-esféricos ou alongados, de cor marrom-escura, translúcidos ou quase transparentes, medindo até cerca de 5 cm, e encontradas em solos resultantes da decomposição recente de lavas vulcânicas claras denominadas “perlitas”.


– OBSIDIANA “LÁGRIMA-DE-APACHE” NA PERLITA

– OBSIDIANA “FLOCOS-DE-NEVE”

– é um material preto opaco com nódulos brancos com aparência de flocos de neve ( causados pelo início de formação do mineral “cristobalita” ), é encontrada no estado do Utah, USA.

– OBSIDIANA “DOURADA”

– ocorre no México, tem cor marrom-esverdeada muito escura, translúcida, e apresenta inclusões tubulares, ocas, que proporcionam reflexões internas da luz do tipo “olho-de-gato”; os índios aztecas e os toltecas a utilizavam intensivamente na confecção de esculturas, ferramentas e pontas de flecha.

– OBSIDIANA “MOGNO”

– ou obsidiana “mahogany”, tem cor preta, opaca, com manchas marrom-avermelhadas, ocorre no México bem como em vários estados norte-americanos ( Arizona, Califórnia, Novo México e Oregon ).

– OBSIDIANA “ARCO-ÍRIS”

– é a variedade mais valiosa, consiste de uma matriz negra, opaca, com zonas internas iridescentes, o que resulta, ao se lapidar o material em cabochão ou na forma de coração, em reflexões internas verdes/ roxas/ azuis/ vermelhas. A ocorrência mais importante se localiza no México

Por outro lado, os vidros, sintéticos, vendidos fraudulentamente como “obsidianas” ou “vidros-da-terra” são verdes ou azul-esverdeados, completamente transparentes, o que jamais foi visto em obsidianas naturais. Sua ocorrência natural é geologicamente impossível: o solo, onde essas “obsidianas” teriam sido encontradas ( é sempre a mesma história, um garimpeiro de “total confiabilidade”, “que não mente”, encontrou a peça escavando a terra, ou um fazendeiro também “totalmente confiável” coletou-a do mesmo modo ), provém sempre da decomposição de uma rocha, seja ela sedimentar, metamórfica ou ígnea; nos dois primeiros casos jamais poderá ser encontrada uma massa de vidro natural, e as rochas ígneas encontradas no Brasil não são do tipo lava vulcânica extrusiva, que poderia conter massas de obsidiana natural ( mas nunca grandes, transparentes e azuis ); as lavas vulcânicas que existiram no Brasil há mais de 40 milhões de anos já foram completamente erodidas.

Recebemos recentemente uma oferta de uma fantástica “obsidiana verde” de 53 kg. A pedra é a das fotos abaixo.

A mensagem oferecendo-a, da qual retiramos os nomes pois queremos acreditar que a pessoa não agiu de má fé e sim por desconhecimento dizia:

“Luiz, boa tarde!

Meu noivo – ******* – ligou para você, por indicação do ******, sobre uma obsidiana verde.
Trata-se de uma pedra com 53,3 Kg – 116 cm de circunsferencia; 32 cm de altura; 35 cm de largura.
Uma pedra muita bonita como você pode observar nas fotos que envio em anexo.

Gostaríamos que avaliasse e se quiser ver pessoalmente ou obter mais informações, por favor, entre em contato.

Seguem os telefones:
Tel: (**) ****-**** ou (**) ****-****.

Desde já agradeço pela atenção.”


Não estamos afirmando que a pessoa que enviou esta mensagem está agindo de má-fé, mas o que ela está oferecendo é um vidro artificial sem nenhum valor científico ou comercial.

A conclusão final é que não existem obsidianas azuis ou azuis-esverdeadas, transparentes, seja no Brasil seja em qualquer outra parte do mundo, e se alguém encontrou algo assim num solo é porque alguém ali a enterrou!

Quem tiver algum caso para contar ou sugerir, envie-nos pelo noso email info@luizmenezes.com.br

Até a próxima!